3 de janeiro de 2011

Castigo

Não devo repetir palavras fúteis.
Não devo repetir palavras fúteis?
Não, devo repetir palavras fúteis!
"Não devo repetir palavras". Fúteis!
"Não devo repetir" – palavras fúteis.

Pergunta sensata

Na sua primeira viagem de avião, o menino nota, logo após se sentar, um aviso colado no banco da frente:
“Mantenha o cinto afivelado enquanto sentado.
Use o assento para flutuar.”
– Pai, o que é afivelado?
– É preso, seguro. É para você usar o cinto de segurança, meu filho.
– Ah! Entendi... E é para a gente ficar sentado o tempo todo?
– Isso, filho. Sentadinho com o cinto de segurança.
Alguns segundos depois, a criança insiste:
– Mas como vou flutuar sentado?

Para que servem os sonhos?

Se for um pesadelo, você acorda desesperado.
Mas acorda...
Se for um sonho bom, você acorda feliz.
Mas acorda...

12 de novembro de 2010

Lembrança do Carnaval

Ônibus lotado. O Cordão do Bola Preta já ia passar. Trânsito intransitável. Entram uma menina fantasiada de coelhinha e um cara alto de camisa laranja e bermuda verde. Os dois se espremem naquele calor humano.
A moça de compridas orelhas postiças se põe a reclamar de todo aquele aperto, do perigo de todos viajando em pé e de como aquilo tudo era um absurdo. Prostrado em sua frente o rapaz a ouvia, complacente. Com uma mão no bolso e a outra no apoio de ferro. O coletivo se mexia para lá e para cá enquanto a jovem advogada dos suados e oprimidos ali presentes seguia esbravejando.
Passados alguns minutos, gargalhadas. O rapaz trouxe a folia dos blocos para dentro do ônibus. Do seu bolso ele retirou uma cenoura e a levou até a boca da coelhinha:
- Vai uma cenourinha?

3 de outubro de 2010

Sentido?

Sem ti, dor.
Senti dor
Sem tido
Sentido.

Sugestão

Vão, homens! Interpretem
Minhas paixões aqui petrificadas
Com as suas.

Encontrem nelas razões
Outras que não as presas
Aos seus próprios passos.

6 de março de 2010

Sonho

A manhã de domingo reluz lá fora. No quarto, tenho a sensação de abrir os olhos, mas a neblina dos sonhos parece ainda não ter se dissipado. Sinto suas pernas entrelaçadas às minhas e o seu rosto fazendo do meu peito seu leito. Quase involuntariamente, ponho-me a acariciar seus fios dourados. Seu corpo se move preguiçoso ao tempo que sua mão delicada sobe pelo meu como uma brisa fresca numa noite de verão. Seus dedos acham minha barba “por fazer” e, movimentam-se, lentamente, entre os pêlos ásperos, para cima e para baixo. Em alguns segundos, sua mão pára. A dúvida entre sonho e realidade cansou suas pálpebras. Enquanto você se molda de novo nos meus braços, suavemente te beijo a testa e sussurro: É real, meu amor.